quinta-feira, 23 de junho de 2011



ORGANIZAÇÃO COLETIVA É SÓ PARA OS CORAJOSOS

Pastor Henrique Vieira

Considerando que as características da nossa sociedade desprezam categorias totalizantes, universalizantes, paradigmáticas, comunitárias e sociais se torna extremamente desafiador participar de construções coletivas e democráticas.

O sentido da vida tem se centrado na auto satisfação do indivíduo. A intensa competição anula laços de solidariedade e fraternidade. O ideário liberal individualista enfraquece a noção de bem comum, de partilha, de igualdade e de humanidade. O determinismo abafa esperanças, zomba da utopia e naturaliza a realidade humana, desconsiderando  outro mundo possível.

No campo teológico isto se expressa muito bem na teologia da prosperidade, em que tudo é possível ao indivíduo, mas nada é discutido no social, no coletivo, no político, no comunitário. É a mais que perfeita sacralização de uma sociedade individualista. É a privatização e a individualização da fé, é a perda da noção histórica, concreta e comunitária do Reino de Deus.

Muitas igrejas têm centrado seus esforços nos indivíduos isoladamente, tornando-se mercados de atendimento de necessidades. Por exemplo: diante de crises econômicas que agravaram e muito as tensões sociais por todo o mundo propunham mecanismos religiosos e “espirituais” de enriquecimento individual.

Não havia nenhum debate a respeito das causas da crise, dos motivos que levaram á crise, dos determinantes da pobreza e da desigualdade e dos possíveis caminhos que podem ser percorridos para construção de uma sociedade mais justa e de um povo mais feliz. Tudo no indivíduo, pelo indivíduo, nesta falsificação do indivíduo que se faz pouco social.

Diante deste quadro avassalador a percepção do Reino de Deus enquanto projeto para toda a humanidade e o engajamento concreto e não meramente discursivo em projetos coletivos se torna desafiador e contra fluxo.

Toda construção coletiva requer perdas, debates, altruísmo, autocrítica, renúncias, desprendimento, paciência e valores fraternos no coração. É  preciso coragem, é preciso perseverança, é preciso paixão e amigos.

Que a nossa igreja seja uma construção coletiva com o objetivo de sinalizar o Reino de Deus e que provoque em seus membros um ânimo, uma provocação existencial para tenham coragem e aceitem a flor e o espinho, o prazer e a dor de construir coletivamente um mundo melhor em nome de Jesus.

Fraterno abraço

Pastor Henrique Vieira

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A IGREJA EM CONTÍNUA REFORMA


A IGREJA EM CONTÍNUA REFORMA

Pastor Henrique Vieira

É preciso reconhecer a natureza histórica, contextual e processual da igreja, pois ela não se constitui nem se forma para além das condições objetivas da história. Isto quer dizer que a igreja tem uma natureza dupla: eterna e temporal e justamente nesta tensão dialética que se
identifica, se define e incorpora sua vocação.

Entendo que abrir mão de qualquer uma destas dimensões incorre em sérios riscos. Perder de vista a dimensão eterna, atemporal e transcendente da igreja é esvaziá-la de espiritualidade, de mística, de sensibilidade ao sagrado, de esperança para além dos limites históricos. 

Abrir mão da confissão de fé, da experiência com Deus, do olhar fervoroso para o texto bíblico é ceder por completo às pressões da modernidade e em nome de uma pseudo aceitação acadêmica e intelectual se descaracterizar por completo.

A igreja deve estar bem enraizada na história, mas não pode perder de vista o que vai além, o
que é sobrenatural, o que é da dimensão da fé, do encontro, da entrega afetiva.  Por outro lado também é extremamente arriscado não perceber a igreja no fluxo histórico da humanidade e sujeita a conformações e modulações no tempo e no espaço. 

Perder de vista a temporalidade, a historicidade, a dimensão cultural, social, política econômica é idealizar a igreja, fazê-la insensível, indiferente, imobilizada, apática, alienante e falsamente neutra diante das questões do mundo.

Negar o concreto, o humano, o cultural, o social, o político é negar a natureza, a amplitude, a integralidade e a potência revolucionária do evangelho. É negar o Deus Emanuel. É negar o Jesus de Nazaré. É negar todo processo de encarnação, temporalização e materialização de Deus em Jesus. Ao se voltar as costas para a história a igreja volta às costas para Deus, superficializa e desnatura sua função.

É justamente a partir deste pressuposto que a igreja se faz sempre em crise e nesta crise se faz igreja. É muito fácil desprezar a fé. É muito fácil negar a história. Estreito e fascinante é articular a fé na história, é olhar para o eterno com os pés fincados no chão, é esperar a volta de Jesus lutando contra toda opressão.

Igreja só é possível mediante a compreensão de sua vocação revelada em Cristo Jesus. A tarefa é sempre se reformar para melhor evocar no tempo a plenitude do eterno.

Forte e fraterno abraço

Pastor Henrique Vieira